Paulista Feminino

Privilegiada, Grazi completa 20 anos de carreira, Paulistão e muitos gols

Publicado em 23 de março de 2018, às 07h00

Guilherme Silva,
Especial para o site da FPF

 

“Sou privilegiada”. Foi com essas palavras que Grazielle Pinheiro Nascimento resumiu sua carreira no futebol feminino até aqui. Com passagens por grandes equipes, como São Paulo, Portuguesa, Santos, Botucatu, além de presença constante nas convocações da Seleção, a atacante do Corinthians completa 20 anos de futebol profissional com grandes números na carreira.

Com 36 anos e mais da metade deles dedicados ao esporte, Grazi mostrou grande capacidade goleadora. Desde 2007, a experiente atleta marcou 132 gols no Paulista Feminino, mas, antes de viver a boa fase, lembra dos primeiros passos da sua trajetória, com os desafios e decisões que mudaram sua vida.

“Comecei a acompanhar os jogos do meu pai nos finais de semana, depois, fui para escolinha dele na época, jogando no meio dos meninos. Com 13 anos, cheguei no Gama, meu primeiro clube feminino onde comecei a aparecer. Tivemos um torneio internacional na época, lá em Brasília, onde me destaquei e recebi o convite do Romeu Castro para ir ao São Paulo, quando cheguei no Saad, aos 15”, recorda a atleta de 36 anos.

Começo no São Paulo
Após o convite de Romeu Castro, Grazielle chegou a São Paulo em 1995, representando o Saad e logo conseguiu sua passagem para o São Paulo. No grupo que foi campeão do Paulistana (nome da competição da época), a atacante revelou a surpresa que teve no primeiro contato com um elenco que tinha jogadoras notáveis.

“Foi meio assustador no primeiro momento. Por serem jogadoras que eu admirava e já conhecia a história da maioria. Depois, com a receptividade de todas, fui me sentindo em casa, abraçada por todas e, através disso, comecei a observar mais e tirar o que elas tinham de melhor para que eu pudesse melhorar cada vez mais”, relembra.

Grazi comentou da admiração que tinha por algumas atletas que faziam parte do conjunto que fora campeão em 1997. “Tinham muitas jogadoras ótimas naquela época, mas as que eu mais admirava e me inspirava eram a Formiga e Tânia Maranhão, pois são até hoje jogadoras técnica e fisicamente excelentes, não à toa que a ‘Fu’ é uma referência”.

Anos mágicos no Botucatu
Após passagem pelo São Paulo, Grazi seguiu para a Portuguesa, ficando no clube de 1998 até 2002, quando se encerrou o projeto. Rodando por alguns estados, a atacante acertou sua ida para o Botucatu, em 2004, no que seria uma passagem marcante na sua carreira. Campeã em três oportunidades do Paulista Feminino com o clube, Grazi avaliou a passagem pela equipe, no qual foi artilheira da competição estadual duas vezes.

“Foi bacana, época boa, fazia muitos gols, mas nada disso aconteceria se não fosse as ótimas companheiras que eu tinha. Ter chegado a essa marca (de 100 gols) com a camisa do Botucatu foi importante, mas nunca me apeguei a essas coisas. Sempre mantive meus pés no chão, não sou jogadora que gosta de badalação, guardo essas lembranças na memória. Sou eternamente grata ao Edson Castro, ao clube, a cidade e a todas as minhas ex-companheiras que passaram por lá durante essa época.

“Não tem como falar de futebol feminino hoje no país e não citar o Botucatu”, sentencia.

Em memória ao mestre
Grazi viveu grande momento no Botucatu e fala com orgulho da importância que o treinador Edson Castro teve no projeto do clube, no seu desenvolvimento e, principalmente, no contato com as atletas.

“O Edson tem uma importância para mim, não só como jogadora, mas como pessoa. Aprendi muita coisa com ele. Um cara especial para todas nós que trabalhamos e convivemos diariamente com ele, que brigava todos os dias na porta da Prefeitura da cidade buscando melhorias para nós. Estava ao nosso lado em todos os momentos, posso dizer que foi um ‘pai’ durante todo tempo que convivemos. Botucatu é uma cidade que está guardada no meu coração para sempre e que está marcada na minha história. Foi considerada durante muito tempo a cidade do futebol feminino, não só pela equipe vitoriosa que teve, mas pela torcida que sempre comparecia em peso para nos apoiar.”

A atacante lembra da insistência que o treinador fazia para manter o bom momento que a equipe vivia, pretendendo mudar de cidade para continuar com o projeto. “A vontade dele era que o clube não acabasse, porém dependíamos da Prefeitura e de patrocínios, que ficou inviável em 2009. Mas acredito que durou o tempo que teria que durar. Ele ainda tentou uma transferência para cidade de São Manuel ao lado de Botucatu, durou pouco tempo apenas e não conseguiu o apoio que ele teve no projeto”.

Edson Castro veio a falecer em 2016. Na função de treinador do Botucatu, o 'Baixinho' conquistou o tricampeonato Paulista (2006, 2008 e 2009), a Taça Brasil (2006), dois vice-campeonatos da Copa do Brasil (2007 e 2009), além de outros torneios como Jogos Regionais e Jogos Abertos do Interior.

Ida ao Santos e recuperação
Com o fim do futebol feminino em Botucatu, a atacante migrou para outro local. Com o convite de Kleiton Lima, Grazi aceitou ser mais uma das principais jogadoras do Santos em 2010. Com o elenco que era a base da seleção, foi campeã paulista e da Libertadores naquele ano, além de ser vice artilheira da competição continental com sete gols, a atacante se lembra da confiança que o treinador teve na recuperação de sua lesão.

“Foi um ano importante e vencedor, foi fácil a adaptação até por conhecer as meninas, fui muito bem recebida e aceita. Kleiton teve uma importância muito grande não só no Santos, mas na Seleção. Foi uma pessoa que acreditou na minha recuperação, pois tive uma lesão grave de ligamento cruzado anterior participando do Torneio Internacional de São Paulo com a Seleção, e tínhamos pouco tempo até o Mundial e o Pan Americanos em 2011. Porém, deu tudo certo e consegui estar presente a tempo”.

Lembranças da seleção
Grazielle foi presença constante nas convocações, disputando diversos torneios, como Olímpiadas, Pan-americanos e Copas do Mundo pela Seleção Brasileira. A atacante falou do momento da primeira lista que fez parte do conjunto nacional e lembrou da previsão que seu pai fez quando começou a carreira.

“Cheguei no ápice da minha carreira, realizei meu sonho, o sonho da minha família, principalmente do meu pai, que me disse quando saí de casa aos 15 anos que eu disputaria uma Copa do Mundo aos 18 anos e achei uma loucura dele na época. Porém, aconteceu em 1999 nos EUA”.

Com a medalha de ouro conquistada no Pan-americano de 2007, a prata olímpica em 2004 e o terceiro lugar no Mundial de 1999, Grazi relata a experiência vivida com o grupo nas Olímpiadas de Atenas, que, para a atacante, chegou à excelência na competição em solo grego graças ao trabalho do técnico Renê Simões.

“Disputar uma Olimpíada é algo surreal, um momento mágico. Não dá para explicar”, diz sem conseguir mensurar o momento vivido, “Eram jogadoras de um nível técnico e físico absurdo, talentosas demais, porém a evolução como um todo partiu do momento em que o René Simões chegou na seleção. Ele causou toda a mudança tática em nós e as coisas começaram a acontecer. Tivemos bons treinadores em várias épocas, mas a excelência na minha opinião foi com o René Prova disso foi a conquista da Medalha de Prata em Atenas”.

Projeto Corinthians
Grazi defende a cores do Corinthians desde 2016, quando a equipe tinha parceria com o Grêmio Osasco Audax. Com dois títulos conquistados desde quando chegou (Copa do Brasil, em 2016, e Libertadores, em 2017), ela vê que o trabalho está bem encaminhado e, com a preparação para essa temporada, pode conseguir as metas traçadas.

“Extremamente importante, principalmente pelo fato de o Corinthians ter voltado com o time feminino. Me sinto muito honrada e feliz em vestir mais uma vez essa camisa. Um projeto grandioso, com uma base mantida -o que facilita muito para todas nós. Chegaram grandes jogadoras, de muita qualidade, com uma vontade enorme de fazer história com essa camisa, uma comissão fantástica que sabe tirar o melhor de cada uma, a diretoria nos dando todo o apoio e suporte possível. Enfim, temos tudo para fazer um grande ano e conseguir os nossos objetivos”.

A equipe chegou na semifinal do Paulista Feminino do ano passado, sendo eliminada pelo Rio Preto. Para Grazi, alcançar a final e conseguir o primeiro título do Corinthians no torneio é um dos objetivos e a equipe tem o que é preciso para conquista-lo.

“Acho que tentar errar o menos possível nessas horas, e estamos trabalhando, como eu disse, diariamente para isso. Temos uma ótima equipe, um plantel fantástico, mas temos que mostrar isso a cada sessão de treinamento, a cada jogo, e já temos aí o nosso primeiro jogo nesse final de semana e colocar em prática é assim faremos”.

Pensamentos para o futebol feminino
Com 36 anos e mais da metade deles dedicados ao esporte, Grazielle pensa que o futebol feminino vem em franca evolução e vê que mais projetos podem aparecer brevemente, melhorando ainda mais o nível das competições.

“Acredito que em um futuro próximo teremos todos os grandes clubes do país abrindo suas portas para a modalidade, campeonatos cada vez mais equilibrados, grandes equipes com grandes jogadoras, com ótimas estruturas e bons projetos para a modalidade”.

Grazi também se sente privilegiada em ter vivenciado as grandes gerações do futebol feminino, inclusive participando de uma delas. “Privilégio de ter acompanhado o final da primeira geração, a minha geração e agora essa nova geração”, completando com o sonho dessa seleção. “Uma outra coisa que eu acredito e desejo é que a Seleção Brasileira conquiste a tão sonhada medalha Olímpica que tanto batemos na trave”, finalizou a sonhadora e privilegiada Grazi.

Pelo Campeonato Paulista que se inicia neste final de semana, o Corinthians de Grazi estreia no domingo (25) às 15h no CDC Maria Felizarda. O adversário é o Centro Olímpico.

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